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 CANDOMBLÉ DA NAÇÃO KETU O   candomblé,   enquanto   culto   organizado.   não   remonta,   em   São   Paulo,   há   mais   de   três   ou   quatro   décadas.   Marcado   por um   desenvolvimento   particular,   a   partir   dos   processos   migratórios   ocorridos   nesse   período,   o   candomblé   paulista   surgiu como   uma   religião   de   possessão   ao   lado   daquelas   aqui   já   existentes,   como   o   espiritismo   Kardecista   e   as   inúmeras variações    da    umbanda    sulista.O    processo    de    instalação    e    difusão    do    culto    aos    orixás    na    região    de    São    Paulo caracterizou-se   pelas   influências   e   empréstimos   entre   as   práticas   espíritas   em   geral   e   da   umbanda   em   particular, observável   seja   pelas   semelhanças   entre   as   estruturas   rituais,   seja   pela   visão   mítica,   formada   por   divindades   comuns   a ambos   os   cultos.   Originou-se,   assim,   um   culto   cuja   referência   às   divindades   africanas   (os   orixás)   e   às   divindades nacionais   (caboclos,   índios,   boiadeiros,   pretos-velhos),   tornou-se   comum,   tanto   nas   regiões   periféricas,   as   primeiras   a localizarem   os   terreiros,   como   nas   regiões   mais   centrais   da   área   metropolitana.   O   termo   "umbandomblé"   com   o   qual   se designa   (comumente   de   modo   pejorativo)   esse   tipo   de   culto,   pode   ser   aplicado   a   um   número   significativo   de   terreiros paulistas   atualmente   em   funcionamento.   É   bom   lembrar,   ainda,   que   o   candomblé   que   aqui   se   instalou,   vindo   de localidades   como   Salvador,   Recôncavo   Baiano,   Recife   e   Rio   de   Janeiro,   não   primava   por   um   "purismo"   de   práticas rituais    tal    como    se    imagina    quando    idealmente    o    dividimos    em    "nações"    como    :    Ketu,   Angola,    Jeje,    além    das denominações   locais   como   "Xangô"   em   Pernambuco   ou   "Tambor   de   Mina"   no   Maranhão.   Na   verdade,   ainda   que   todas essas   "nações"   estejam   representadas   em   São   Paulo,   podemos   supor   que   o   processo   de   influências   e   empréstimos verificados   aqui   também   é   fenômeno   característico   do   candomblé   em   seus   locais   de   origem,   como   bem   atesta   o candomblé de caboclo, principalmente nos terreiros angola da Bahia Estas   referências   tornam-se   necessárias   na   medida   em   que   o   universo   dos   cultos   afro-brasileiros,   em   seus   múltiplos aspectos,    manifesta-se    empiricamente    de    tal    forma    integrado    que    uma    classificação    como    a    que    iremos    expor, privilegiando   o   ponto   de   vista   musical,   deve   ser   entendida   como   uma   ordenação   analítica   possível,   entre   tantas   outras. Do   mesmo   modo   que   (para   o   desespero   dos   pesquisadores   desacostumados   com   a   exceção)   no   candomblé   vale   mais o   detalhe   que,   quebrando   a   regra,   insinua   um   conhecimento   que   diferencia   e   ao   mesmo   tempo   testemunha   a   vitalidade e   importância   da   norma   para   o   grupo.   Se   Oxum,   a   divindade   das   águas,   sempre   veste   amarelo,   come   ipeté,   dança   de modo   lento   e   dengoso   ao   som   do   ritmo   ijexá   e   é   saudada   com   a   expressão   "Ora   ieieu!",   uma   fitinha   azul   arrematando sua   saia   dourada,   um   quitute   inesperado   entre   as   folhas   de   mamona   do   ipeté   e   uma   certa   agressividade   no   jeito   de dançar   sob   as   saudações   efusivas   de   "Ora   ieieu   mi   ka   fiderioman"   pode   revelar   a   exceção   que   consubstancia   a generalidade do estereótipo na riqueza de sua variação. Assim,    este    trabalho,    privilegiando    a    música    ritual,    ocupar-se-á    de    uma    parcela    de    um    todo    integrado,    tratando, principalmente,   dos   aspectos   recorrentes.   Faremos   contudo,   uma   breve   descrição   do   culto   de   forma   a   contextualizar previamente nossas afirmações sobre a música. I- A Estrutura do Rito A   noção   em   que   se   baseia   este   trabalho   é   a   de   que   o   candomblé,   uma   religião   iniciática   e   de   possessão,   apresenta   dois momentos    que,    grosso    modo,    constituem    as    duas    principais    modalidades    da    expressão    religiosa:    as    cerimônias privadas,   às   quais   têm   acesso   apenas   os   iniciados   (entre   elas   os   ebós,   boris   e   orôs)   e   as   cerimônias   públicas   (abertas ao    público    em    geral)    comumente    denominadas    "toques".    Sem    dúvida,    a    separação    é    sobretudo    analítica    e    sua artificialidade   se   justifica   pela   tentativa   de   tornar   a   exposição   o   mais   clara   possível.   De   fato,   as   cerimônias   privadas   ou públicas podem se articular, constituindo uma unidade, como, por exemplo, num toque de saída de iaô. A- As cerimônias privadas da iniciação. A   sustentação   social   e   religiosa   do   candomblé   depende   do   fluxo   renovado   de   iniciados   que   investem   parte   de   seu tempo   e   seu   trabalho   para   garantir   a   continuidade   do   grupo   do   terreiro   e   do   conjunto   de   práticas   que,   somadas, constituem   o   arcabouço   religioso   do   culto. A   iniciação   é,   ainda,   um   forte   elemento   de   coesão   do   grupo,   já   que   todos   os que   passaram   pelos   rituais   iniciáticos   sabem   das   dificuldades,   de   todos   os   gêneros,   que   devem   ser   enfrentadas: financeiras,   emocionais,   psicológicas   e   sociais;   da   necessária   força   de   vontade   e   humildade   imprescindíveis   para começar   a   nova   vida,   na   qual   uma   nova   personalidade   será   construída.   Novo   nome,   novos   hábitos,   novas   referências. Postura   que   se   refletirá   na   vida   cotidiana   em   casa,   na   rua,   no   trabalho   ou   mesmo   no   lazer.   O   iniciado   assume   um compromisso   eterno   com   seu   orixá   e,   ao   mesmo   tempo,   com   seu   "pai"   ou   "mãe"   de   santo.   Há   uma   nova   família   que   se forja;   novos   vínculos   de   parentesco,   que   se   pretendem   mais   significativos   que   os   laços   sanguíneos.   Como   dizem   no candomblé   um   "irmão   de   folha   é   mais   irmão   que   um   irmão   de   sangue".   Há   uma   nova   estruturação   do   mundo   que deverá   ser   aprendida   por   etapas   e   que   começa   no   ato   de   "bolar",   quando   o   indivíduo   "morre"   para   a   vida   profana, iniciando o período do recolhimento, para renascer no dia de sua saída pública. Bolar "Bolar",   ou   "cair   no   santo",   é   indício   da   necessidade   da   futura   iniciação.   Geralmente   acontece   quando   a   pessoa   participa de   um   "toque"   e   o   orixá   a   incorpora,   ainda   no   estado   que   os   adeptos   denominam   de   "bruto"   (ainda   não   assentado   ou "feito").   Bolar,   aparentemente,   é   como   desmaiar.   Mas   o   orixá   está   ali.   Tomou   a   cabeça   de   seu   filho,   mesmo   contra   a vontade   deste,   cobrando   sua   iniciação.   A   "bolação"   geralmente   acontece   enquanto   as   pessoas   cantam   e   dançam   para os   orixás,   sendo   significativa,   para   a   identificação   do   orixá   ao   qual   a   pessoa   pertence,   a   divindade   para   a   qual   se cantava quando a pessoa bolou. Uma   vez   "bolada"   a   pessoa   é   levada   para   o   roncó   ou   para   o   quarto   de   santo,   onde   será   "acordada".   Se   depois   de   bolar uma   ou   mais   vezes,   a   pessoa   decidir   se   iniciar,   o   pai-de-santo   consultará   o   oráculo   (jogo   de   búzios)   para   determinar   que orixá   será   feito   e   como   (com   que   folhas,   de   que   modo,   com   que   quantidades,   que   animais   serão   sacrificados   etc.).   O pai-de-santo   prepara   o   roncó   com   a   esteira   sob   a   qual   serão   depositadas   as   devidas   folhas,   as   representações materiais   do   orixá   (como   quartilhões,   alguidares,   ferramentas,   pratos   etc.)   e   tudo   o   mais   que   será   necessário   durante   o tempo   do   recolhimento.   Só   então   é   feito   o   "toque   de   bolar",   quando   o   abiã   (iniciando)   será   levado   para   o   barracão   onde, ao   som   dos   atabaques,   dançará   para   o   seu   orixá   até   que   este   incorpore.   Bolado,   o   abiã   será   recolhido,   para   reaparecer em público no dia da festa da saída. Durante   este   período,   o   abiã   vai   sendo   inserido   no   grupo   através   do   aprendizado   das   práticas   rituais.   Aprende   a hierarquia   da   casa,   os   tabus,   os   preceitos,   orações   para   o   seu   e   para   todos   os   outros   orixás,   aprende   cantigas,   aprende a   dançar   para   o   orixá,   aprende   os   mitos,   os   cumprimentos,   suas   obrigações,   enfia   contas   para   compor   seus   colares iniciáticos,   reza,   come   e   dorme.   São   vinte   e   um   dias,   em   geral,   em   que   ele   permanecerá   dia   e   noite   na   casa   de   santo, confinado   ao   roncó,   dele   saindo   apenas   para   os   banhos   rituais   ou   outras   cerimônias   necessárias   para   sua   purificação, como   os   ebós,   que   visam   desligar   o   abiã   de   suas   ligações   com   o   mundo   exterior,   com   as   doenças,   os   mortos,   a sexualidade,   enfim,   da   vida   anterior.   Purificado   o   corpo,   inicia-se   o   processo   de   assentamento   do   orixá,   propriamente dito. O Bori O   bori   consiste,   segundo   os   adeptos,   em   "dar   comida   à   cabeça",   ao   ori   (que   é,   em   si,   uma   entidade),   com   o   objetivo   de fortificá-la   e   ao   mesmo   tempo   reverenciá-la,   pois   o   orixá   só   tomou   aquela   cabeça   (aquele   ori)   porque   esta   assim   o permitiu.   Nesta   cerimônia   são   oferecidos   alimentos   secos   e   sangue   de   um   pombo   à   cabeça   do   abiã,   iniciando   a   aliança definitiva   deste   com   seu   ori   e   com   seu   orixá.   Do   mesmo   modo   o   bori,   ainda   quando   feito   fora   do   processo   de   iniciação, cria um vínculo do indivíduo com a casa de santo e o obriga a determinados comportamentos rituais. O Orô Chega   finalmente   o   dia   do   orô,   a   cerimônia   de   assentamento   do   orixá,   na   qual   o   abiã   terá   sua   cabeça   depilada   e   serão sacrificados   os   animais   correspondentes   ao   orixá   que   está   sendo   assentado.   Geralmente   os   orixás   recebem   como sacrifício   um   animal   "de   quatro   patas"   (de   acordo   com   suas   preferências   características:   para   Ogun,   por   exemplo, sacrifica-se   um   bode   escuro;   para   Oxum,   uma   cabra   amarelada).   Para   cada   pata   do   animal,   deve-se   sacrificar   uma galinha.   Outras   aves,   como   galinhas   d'angola,   pombos   e   patos,   também   podem   ser   sacrificados.   Além   da   cabeça,   os assentamentos   que   foram   preparados   recebem   também   parte   dos   sacrifícios   dos   animais,   pondo   o   corpo   do   iniciado   em relação com os símbolos do deus, unindo as várias formas de um mesmo conteúdo: o orixá. Sendo   a   cabeça   considerada   o   ponto   privilegiado   da   manifestação   divina,   é   nela   que   se   farão   os   cortes   rituais   (aberês) propiciatórios   à   incorporação,   bem   como   as   pinturas   feitas   com   as   tintas   sagradas   obtidas   a   partir   da   diluição   de   pós como   o   waji,   o   ossum   e   o   efum   (azul,   vermelho   e   branco   respectivamente). Também   o   Kelê   (colar   de   contas   usado   rente ao   pescoço,   sublinhando   a   importância   da   cabeça   que   foi   sacralizada)   é   amarrado   nesse   momento   e   assim   deverá permanecer   por   um   período   de   três   meses,   durante   os   quais   um   conjunto   preciso   de   interdições   deverá   ser   observado pelo iaô. Finda a cerimônia, o agora iaô, ainda no roncó, aguarda o dia de sua saída numa festa pública.
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 CANDOMBLÉ DA NAÇÃO KETU O   candomblé,   enquanto   culto   organizado.   não   remonta, em    São    Paulo,    há    mais    de    três    ou    quatro    décadas. Marcado   por   um   desenvolvimento   particular,   a   partir   dos processos     migratórios     ocorridos     nesse     período,     o candomblé     paulista     surgiu     como     uma     religião     de possessão   ao   lado   daquelas   aqui   já   existentes,   como   o espiritismo    Kardecista    e    as    inúmeras    variações    da umbanda   sulista.O   processo   de   instalação   e   difusão   do culto   aos   orixás   na   região   de   São   Paulo   caracterizou-se pelas    influências    e    empréstimos    entre    as    práticas espíritas     em     geral     e     da     umbanda     em     particular, observável   seja   pelas   semelhanças   entre   as   estruturas rituais,   seja   pela   visão   mítica,   formada   por   divindades comuns   a   ambos   os   cultos.   Originou-se,   assim,   um   culto cuja   referência   às   divindades   africanas   (os   orixás)   e   às divindades     nacionais     (caboclos,     índios,     boiadeiros, pretos-velhos),    tornou-se    comum,    tanto    nas    regiões periféricas,   as   primeiras   a   localizarem   os   terreiros,   como nas    regiões    mais    centrais    da    área    metropolitana.    O termo      "umbandomblé"      com      o      qual      se      designa (comumente    de    modo    pejorativo)    esse    tipo    de    culto, pode   ser   aplicado   a   um   número   significativo   de   terreiros paulistas   atualmente   em   funcionamento.   É   bom   lembrar, ainda,   que   o   candomblé   que   aqui   se   instalou,   vindo   de localidades   como   Salvador,   Recôncavo   Baiano,   Recife   e Rio    de    Janeiro,    não    primava    por    um    "purismo"    de práticas   rituais   tal   como   se   imagina   quando   idealmente o    dividimos    em    "nações"    como    :    Ketu,   Angola,    Jeje, além    das    denominações    locais    como    "Xangô"    em Pernambuco    ou    "Tambor    de    Mina"    no    Maranhão.    Na verdade,    ainda    que    todas    essas    "nações"    estejam representadas    em    São    Paulo,    podemos    supor    que    o processo   de   influências   e   empréstimos   verificados   aqui também   é   fenômeno   característico   do   candomblé   em seus   locais   de   origem,   como   bem   atesta   o   candomblé de    caboclo,    principalmente    nos    terreiros    angola    da Bahia Estas   referências   tornam-se   necessárias   na   medida   em que    o    universo    dos    cultos    afro-brasileiros,    em    seus múltiplos   aspectos,   manifesta-se   empiricamente   de   tal forma    integrado    que    uma    classificação    como    a    que iremos    expor,    privilegiando    o    ponto    de    vista    musical, deve    ser    entendida    como    uma    ordenação    analítica possível,    entre    tantas    outras.    Do    mesmo    modo    que (para   o   desespero   dos   pesquisadores   desacostumados com   a   exceção)   no   candomblé   vale   mais   o   detalhe   que, quebrando    a    regra,    insinua    um    conhecimento    que diferencia   e   ao   mesmo   tempo   testemunha   a   vitalidade   e importância    da    norma    para    o    grupo.    Se    Oxum,    a divindade    das    águas,    sempre    veste    amarelo,    come ipeté,   dança   de   modo   lento   e   dengoso   ao   som   do   ritmo ijexá   e   é   saudada   com   a   expressão   "Ora   ieieu!",   uma fitinha   azul   arrematando   sua   saia   dourada,   um   quitute inesperado   entre   as   folhas   de   mamona   do   ipeté   e   uma certa     agressividade     no     jeito     de     dançar     sob     as saudações    efusivas    de    "Ora    ieieu    mi    ka    fiderioman" pode      revelar      a      exceção      que      consubstancia      a generalidade do estereótipo na riqueza de sua variação. Assim,    este    trabalho,    privilegiando    a    música    ritual, ocupar-se-á    de    uma    parcela    de    um    todo    integrado, tratando,     principalmente,     dos     aspectos     recorrentes. Faremos    contudo,    uma    breve    descrição    do    culto    de forma   a   contextualizar   previamente   nossas   afirmações sobre a música. I- A Estrutura do Rito A   noção   em   que   se   baseia   este   trabalho   é   a   de   que   o candomblé,    uma    religião    iniciática    e    de    possessão, apresenta   dois   momentos   que,   grosso   modo,   constituem as   duas   principais   modalidades   da   expressão   religiosa: as   cerimônias   privadas,   às   quais   têm   acesso   apenas   os iniciados    (entre    elas    os    ebós,    boris    e    orôs)    e    as cerimônias    públicas    (abertas    ao    público    em    geral) comumente    denominadas    "toques".    Sem    dúvida,    a separação   é   sobretudo   analítica   e   sua   artificialidade   se justifica   pela   tentativa   de   tornar   a   exposição   o   mais   clara possível.   De   fato,   as   cerimônias   privadas   ou   públicas podem   se   articular,   constituindo   uma   unidade,   como,   por exemplo, num toque de saída de iaô. A- As cerimônias privadas da iniciação. A   sustentação   social   e   religiosa   do   candomblé   depende do   fluxo   renovado   de   iniciados   que   investem   parte   de seu   tempo   e   seu   trabalho   para   garantir   a   continuidade do    grupo    do    terreiro    e    do    conjunto    de    práticas    que, somadas,   constituem   o   arcabouço   religioso   do   culto.   A iniciação    é,    ainda,    um    forte    elemento    de    coesão    do grupo,    já    que    todos    os    que    passaram    pelos    rituais iniciáticos   sabem   das   dificuldades,   de   todos   os   gêneros, que    devem    ser    enfrentadas:    financeiras,    emocionais, psicológicas   e   sociais;   da   necessária   força   de   vontade   e humildade   imprescindíveis   para   começar   a   nova   vida, na   qual   uma   nova   personalidade   será   construída.   Novo nome,   novos   hábitos,   novas   referências.   Postura   que   se refletirá   na   vida   cotidiana   em   casa,   na   rua,   no   trabalho ou   mesmo   no   lazer.   O   iniciado   assume   um   compromisso eterno   com   seu   orixá   e,   ao   mesmo   tempo,   com   seu   "pai" ou   "mãe"   de   santo.   Há   uma   nova   família   que   se   forja; novos   vínculos   de   parentesco,   que   se   pretendem   mais significativos   que   os   laços   sanguíneos.   Como   dizem   no candomblé   um   "irmão   de   folha   é   mais   irmão   que   um irmão   de   sangue".   Há   uma   nova   estruturação   do   mundo que   deverá   ser   aprendida   por   etapas   e   que   começa   no ato   de   "bolar",   quando   o   indivíduo   "morre"   para   a   vida profana,    iniciando    o    período    do    recolhimento,    para renascer no dia de sua saída pública. Bolar "Bolar",   ou   "cair   no   santo",   é   indício   da   necessidade   da futura   iniciação.   Geralmente   acontece   quando   a   pessoa participa   de   um   "toque"   e   o   orixá   a   incorpora,   ainda   no estado   que   os   adeptos   denominam   de   "bruto"   (ainda não   assentado   ou   "feito").   Bolar,   aparentemente,   é   como desmaiar.   Mas   o   orixá   está   ali.   Tomou   a   cabeça   de   seu filho,    mesmo    contra    a    vontade    deste,    cobrando    sua iniciação. A   "bolação"   geralmente   acontece   enquanto   as pessoas    cantam    e    dançam    para    os    orixás,    sendo significativa,    para    a    identificação    do    orixá    ao    qual    a pessoa   pertence,   a   divindade   para   a   qual   se   cantava quando a pessoa bolou. Uma   vez   "bolada"   a   pessoa   é   levada   para   o   roncó   ou para    o    quarto    de    santo,    onde    será    "acordada".    Se depois   de   bolar   uma   ou   mais   vezes,   a   pessoa   decidir   se iniciar,    o    pai-de-santo    consultará    o    oráculo    (jogo    de búzios)    para    determinar    que    orixá    será    feito    e    como (com   que   folhas,   de   que   modo,   com   que   quantidades, que    animais    serão    sacrificados    etc.).    O    pai-de-santo prepara    o    roncó    com    a    esteira    sob    a    qual    serão depositadas     as     devidas     folhas,     as     representações materiais     do     orixá     (como     quartilhões,     alguidares, ferramentas,    pratos    etc.)    e    tudo    o    mais    que    será necessário   durante   o   tempo   do   recolhimento.   Só   então   é feito   o   "toque   de   bolar",   quando   o   abiã   (iniciando)   será levado   para   o   barracão   onde,   ao   som   dos   atabaques, dançará    para    o    seu    orixá    até    que    este    incorpore. Bolado,   o   abiã   será   recolhido,   para   só   reaparecer   em público no dia da festa da saída. Durante    este    período,    o    abiã    vai    sendo    inserido    no grupo    através    do    aprendizado    das    práticas    rituais. Aprende   a   hierarquia   da   casa,   os   tabus,   os   preceitos, orações    para    o    seu    e    para    todos    os    outros    orixás, aprende    cantigas,    aprende    a    dançar    para    o    orixá, aprende   os   mitos,   os   cumprimentos,   suas   obrigações, enfia   contas   para   compor   seus   colares   iniciáticos,   reza, come   e   dorme.   São   vinte   e   um   dias,   em   geral,   em   que ele   permanecerá   dia   e   noite   na   casa   de   santo,   confinado ao   roncó,   dele   saindo   apenas   para   os   banhos   rituais   ou outras    cerimônias    necessárias    para    sua    purificação, como    os    ebós,    que    visam    desligar    o    abiã    de    suas ligações   com   o   mundo   exterior,   com   as   doenças,   os mortos,   a   sexualidade,   enfim,   da   vida   anterior.   Purificado o   corpo,   inicia-se   o   processo   de   assentamento   do   orixá, propriamente dito. O Bori O   bori   consiste,   segundo   os   adeptos,   em   "dar   comida   à cabeça",   ao   ori   (que   é,   em   si,   uma   entidade),   com   o objetivo   de   fortificá-la   e   ao   mesmo   tempo   reverenciá-la, pois   o   orixá   só   tomou   aquela   cabeça   (aquele   ori)   porque esta   assim   o   permitiu.   Nesta   cerimônia   são   oferecidos alimentos   secos   e   sangue   de   um   pombo   à   cabeça   do abiã,   iniciando   a   aliança   definitiva   deste   com   seu   ori   e com   seu   orixá.   Do   mesmo   modo   o   bori,   ainda   quando feito   fora   do   processo   de   iniciação,   cria   um   vínculo   do indivíduo     com     a     casa     de     santo     e     o     obriga     a determinados comportamentos rituais. O Orô Chega     finalmente     o     dia     do     orô,     a     cerimônia     de assentamento   do   orixá,   na   qual   o   abiã   terá   sua   cabeça depilada        e        serão        sacrificados        os        animais correspondentes   ao   orixá   que   está   sendo   assentado. Geralmente    os    orixás    recebem    como    sacrifício    um animal     "de     quatro     patas"     (de     acordo     com     suas preferências   características:   para   Ogun,   por   exemplo, sacrifica-se   um   bode   escuro;   para   Oxum,   uma   cabra amarelada).     Para     cada     pata     do     animal,     deve-se sacrificar    uma    galinha.    Outras    aves,    como    galinhas d'angola,     pombos     e     patos,     também     podem     ser sacrificados.   Além   da   cabeça,   os   assentamentos   que foram   preparados   recebem   também   parte   dos   sacrifícios dos   animais,   pondo   o   corpo   do   iniciado   em   relação   com os   símbolos   do   deus,   unindo   as   várias   formas   de   um mesmo conteúdo: o orixá. Sendo   a   cabeça   considerada   o   ponto   privilegiado   da manifestação    divina,    é    nela    que    se    farão    os    cortes rituais   (aberês)   propiciatórios   à   incorporação,   bem   como as   pinturas   feitas   com   as   tintas   sagradas   obtidas   a   partir da   diluição   de   pós   como   o   waji,   o   ossum   e   o   efum   (azul, vermelho   e   branco   respectivamente).   Também   o   Kelê (colar   de   contas   usado   rente   ao   pescoço,   sublinhando   a importância   da   cabeça   que   foi   sacralizada)   é   amarrado nesse    momento    e    assim    deverá    permanecer    por    um período   de   três   meses,   durante   os   quais   um   conjunto preciso   de   interdições   deverá   ser   observado   pelo   iaô. Finda   a   cerimônia,   o   agora   iaô,   ainda   no   roncó,   aguarda o dia de sua saída numa festa pública.
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