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Mão de Vumbe Ou   Mão   de   Nvumbe   ou   tirar   mão   de   Vumbi,   Maku   Nvumbi,   significa   fazer   a cerimónia   para   tirar   a   mão   do   falecido,   e   é   realizada   um   ano   após   o   Ntambi   (a cerimónia fúnebre). Esta    cerimónia    é    necessária    e    apenas    realizada    nas    pessoas    que    foram iniciadas   pela   pessoa   que   morreu,   ou   seja,   na   prática   é   tirar   a   mão   do   morto.   É importante   notar   que   não   se   aplica   portanto   a   simples   frequentadores,   ou Abiãs da casa. Quando   uma   pessoa   é   iniciada   por   um   pai   ou   mãe-de-santo,   passa   a   ter   um vínculo   espiritual,   a   mão   da   pessoa   em   sua   cabeça,   a   mão   que   transmitiu   o axé. Assim,   quando   o   pai   ou   mãe   –   de   –   santo   morre   é   necessário   tirar   a   mão   do   morto,   essa   cerimônia   é   feita   por   outro pai ou mãe – de – santo escolhido pela pessoa. A   realização   desta   cerimônia   é   importante   pois   permite   que   o   iniciado   possa   assumir   em   pleno   e   dar   continuidade   à sua evolução em uma outra casa de santo. A   palavra   Vumbe   é   usada   no   Candomblé   Bantu   de   nações Angola   e   Congo,   o   significado   é   o   mesmo   que   tirar   a   mão do Egum usada no Candomblé Ketu. Morte do Pai-de-Santo: implicações e dificuldades para a continuidade dos terreiros de candomblé “A   morte   é,   sem   dúvida,   para   todos   os   grupos   e   para   todas   as   sociedades,   um   evento   desestruturante.   Não   só   pela perda   das   pessoas   queridas   mas   também   porque   deixa   vago,   na   estrutura   familiar,   social,   grupal   etc.,   um   espaço nem   sempre   preenchível,   principalmente   em   termos   da   relação   particular   do   indivíduo   que   morre   com   os   outros. Ainda   que   seu   “lugar”   venha   a   ser   ocupado   por   algum   “substituto”,   o   conteúdo   das   relações   nem   sempre   –   ou   quase nunca   –   pode   permanecer   inalterado.   Para   o   candomblé,   a   morte   pode   ser   bastante   mais   complexa,   especialmente quando   se   trata   da   morte   de   um   chefe   de   terreiro   .   As   várias   mortes   de   pais-de-santo   ocorridas   recentemente   e levantam   algumas   questões   sobre   esta   problemática   que   devem   ser   discutidas   e   eu   gostaria   de   dar   um   primeiro impulso a esta discussão. O    primeiro    problema    diz    respeito    às    questões    rituais.    No    candomblé    acredita-se    que    o    morto,    quando    ainda recentemente   falecido,   pode   causar   perturbações   aos   vivos,   seja   porque   se   sente   ainda   ligado   aos   que   amou,   seja porque   deseja   ser   ajudado   a   desvencilhar-se   dos   vínculos   com   o   mundo   material.   Há   também   a   questão   de   que   o orixá   que   foi   assentado   na   cabeça   do   iniciado   falecido   (e   em   representações   materiais),   deve   ser   “libertado”   para   que possa   retornar   à   “energia   natural”   da   qual,   na   forma   de   um   orixá   particular,   era   apenas   um   avatar,   uma   “qualidade”, uma   fração.   Por   este   motivo   é   realizado   o   ritual   denominado   axexê,   ou   cirrum,   que   visa   “despachar   o   egun”,   isto   é, libertar   os   espírito   das   relações   com   o   mundo   dos   vivos   e   “encaminhá-lo”   ao   mundo   dos   mortos,   livrando   também   o orixá. A   maioria   dos   adeptos   do   candomblé   não   sabe   explicar,   contudo,   o   que   seja   este   “mundo   dos   mortos”.   Muitos   dizem mesmo   que   depois   da   morte   não   existe   nada.   “Morreu,   morreu. Acabou”.   Este   desconhecimento,   e   também   um   certo “desinteresse” pelo que se passaria no pós-morte leva o povo-de-santo a pelo menos duas diferentes atitudes: 1   –   A   morte   e   o   morto   são   entregues   à   religião   hegemônica,   no   caso   o   catolicismo,   que   se   encarrega   de   ritualizá-la através   do   enterro   católico,   orações,   missa   de   sétimo   dia   etc.   Quando   se   trata   de   um   iaô,   os   assentamentos costumam    ser    simplesmente    “despachados”    (geralmente    jogados    num    rio    ou    num    cemitério)    com    cerimônias menores; 2   –   É   realizado   o   axexê,   a   cerimônia   funeral   do   candomblé,   dedicada   em   geral   apenas   aos   ebomis   que   têm   filhos-de- santo.   Neste   caso   o   ritual   se   torna   imprescindível   e   é   exigido   tanto   pelas   famílias-de-santo   quanto   pela   comunidade do   povo-de-santo   em   geral.   Estabelece-se   assim   uma   diferenciação   das   pessoas   também   diante   da   morte   causando um   certo   estranhamento   o   fato   de   iniciados   não-ebomis   não   necessitarem   do   axexê   para   libertarem   seus   orixás   e seus vínculos com a família-de-santo. Mas existem razões para que as coisas se passem assim. A   realização   do   axexê,   uma   grande   e   trabalhosa   cerimônia,   tem   sido   reservada   apenas   para   chefes   de   terreiro   não   pela   grande   quantidade   de   vínculos   (com   seu   pai-de-santo,   seus   irmãos-de-santo,   filhos-de-santo,   netos-de-santo, sua   família   carnal   etc.)   que   estes   mantêm   mas   também   pelos   grandes   obstáculos   que   devem   ser   vencidos   antes   de sua   efetuação.   Um   deles   é   a   falta   de   sacerdotes   com   conhecimento   suficiente   para   realizar   o   axexê.   Sendo   uma religião   mágica,   o   processo   ritual,   os   detalhes,   as   “fórmulas”   mágicas   são   sempre   motivo   de   extremado   cuidado, medo    e    desconfiança.    Qualquer    mínimo    erro,    descuido    ou    engano    pode    ser    a    fonte    de    grandes    desgostos    e problemas. Principalmente quando se lida com o absoluto desconhecido que é a morte. Assim,   poucos   são   os   sacerdotes   que   se   “arriscam”   a   realizar   o   axexê,   preferindo   entregá-lo   aos   mais   antigos sacerdotes   (   QUE   EU   ACHO   CERTO   ),   mesmo   pagando   um   alto   preço   por   seus   serviços   religiosos.   Como   a realização   desta   cerimônia   tem   se   revelado   bastante   lucrativa,   aqueles   que   a   conhecem   profundamente   têm   evitado ensiná-las   até   mesmo   aos   seus   próprios   filhos-de-santo   mantendo,   desse   modo,   o   “monopólio”   do   conhecimento religioso.   Os   especialistas   em   axexê,   cobram   em   média   1000   dólares   para   realizá-lo.   E   não   é   fácil,   para   os   grupos   de filhos   dos   terreiros,   conseguir   este   dinheiro   e   até   mesmo   superar   questões   como   “quem   vai   realizar   o   axexê,   de   que modo, quando, por quanto etc.”, pois a morte do chefe de um terreiro gera situações gravemente desestruturantes. Estas   situações   chegam   mesmo   a   colocar   em   risco   a   continuidade   da   casa-de-santo,   pois   surgem   muitas   dúvidas: quem   seria   o   sacerdote   mais   indicado   para   realizar   o   axexê?   Quem   será   o   novo   ou   nova   chefe   do   terreiro?   A   casa continuará   e   o   indivíduo   permanecerá   nela,   ou   fechará   (o   que   é   mais   comum)   e   o   filho   de   santo   precisará   ser   adotado por   outra   casa,   devendo,   neste   caso,   reestruturar   toda   sua   vida   religiosa?.   Caso   a   casa   seja   extinta,   quem   adotará   os filhos-de-santo   do   morto,   cuidando   de   seus   orixás?   Muita   gente,   especialmente   ogãs   e   ekedes,   fica   sem   rumo,   sem saber o que fazer de sua vida religiosa: . Agora   que   ele   morreu,   o   que   é   que   eu   faço?   Pra   que   terreiro   eu   vou?   Vou   como   ekede?   Mas   de   quem?   Mas   não   foi ela que me suspendeu! Além   do   axexê,   que   rompe   os   laços   do   homem   com   o   orixá   e   com   o   mundo   dos   vivos   é   preciso   ainda   que   o   filho-de- santo   rompa   seu   laço   individual   com   o   morto,   através   da   cerimônia   de   “tirar   a   mão   de   vume”,   que   consiste   em   apagar a   marca   do   pai-de-santo   na   cabeça   do   filho,   impondo-lhe   outra,   nova,   de   um   novo   pai   ou   mãe-de-santo.   Mas   antes   de qualquer   outra   coisa   é   preciso   realizar   o   axexê   do   pai-de-santo,   sem   o   qual   todos   os   outros   procedimentos   ficam impedidos.   Para   tanto,   é   preciso   que   haja,   imediatamente   após   a   morte   do   chefe   da   casa,   a   cotização   da   família-de- santo   para   financiar   a   cerimônia   do   axexê.   Sendo   uma   soma   tão   alta   (especialmente   para   o   povo-de-santo,   formado por   gente   pobre   em   sua   maior   parte),   essa   cotização   pode   desestruturar   a   vida   financeira   dos   filhos,   que   precisam contribuir   para   que   se   consiga   pagar   o   sacerdote   que   realizará   a   cerimônia   e   para   a   compra   do   material   necessário, também   bastante   caro,   quase   outros   mil   dólares.   Muitas   vezes   os   filhos-de-santo   recorrem   a   estranhos,   clientes   do pai-de-santo,   vendem   móveis,   objetos   e   outras   coisas   do   terreiro,   pedem   às   lojas   de   artigos   religiosos   onde   o   pai-de- santo   comprava   material   para   sua   casa   que   forneçam   pelo   menos   parte   do   material,   fazem   listas,   rifas   etc.   Tudo   isto tem    que    ser    feito    em    prazo    muito    curto    e    nem    sempre    é    possível    realizar    o    axexê    no    devido    tempo.    E    os “especialistas”   não   costumam   baixar   seus   preços.   Na   melhor   das   hipóteses   podem   parcelar   em   duas   vezes   seus honorários.   Muitas   vezes   nem   mesmo   permitem   que   os   interessados   comprem   o   material   do   ritual   (encarregando-se eles próprios disto), temendo que o fornecimento da lista seja um primeiro passo para a quebra do “segredo”. Vê-se   que   um   problema   gera   outro.   A   falta   de   sacerdotes   que   conheçam   o   ritual   (poucas   vezes   ensinados,   sejamos justos)   cria   um   monopólio   de   “conhecedores”   bastante   restrito   que,   por   sua   vez   põem   um   preço   altíssimo   em   seus serviços,   criando   dificuldades   econômicas   que   poucas   vezes   podem   ser   superadas   a   contento   pelos   filhos-de-santo. Com   isso,   realizam-se   cada   vez   menos   axexês   e   tais   especialistas   correm   o   risco   de,   a   médio   prazo,   verem   seus serviços   se   tornarem   desnecessários   com   a   extinção   desse   rito   no   candomblé,   o   que   parece   já   estar   acontecendo. Talvez   estes   “conhecedores”,   “especialistas”,   não   tenham   quem   “bata   ”   seu   próprio   axexê   por   falta   de   quem   possa fazê-lo. Suponhamos,   para   continuar   nosso   assunto,   que   o   terreiro   consiga   passar   pelas   dificuldades   do   axexê.   Que   consiga realizá-lo   .   Surge   então   um   outro   problema:   a   sucessão   da   chefia   da   casa   de   candomblé.   As   sucessões   são geralmente   bastante   conflituosas,   pois   teoricamente   vários   são   os   candidatos   a   ela,   mais   ainda   se   a   casa   tem   muitos ebomis.   Na   maioria   das   vezes   existem   ainda   os   descendentes   carnais   também   iniciados   que   se   julgam   herdeiros preferenciais.   Como   a   resolução   passa   pela   consulta   ao   oráculo   dos   búzios   e   esta   só   pode   ser   feita   depois   de realizado   o   axexê,   arma-se   uma   rede   de   problemas   pois   o   tempo   passa,   os   conflitos   se   definem   em   facções,   acirram- se   e   muita   gente   abandona   o   terreiro   ou   briga   ferozmente   por   sua   continuidade   que   passa   a   ser,   então,   muito questionada   em   função   dos   conflitos   gerados   pela   morte   do   líder   da   casa.   Intromissões   de   gente   de   outros   terreiros, ligada por vínculos do parentesco religioso também é bastante comum. Existe   ainda   a   questão   legal.   Muitos   pais   e   mães-de-santo   paulistas,   para   usá-los   como   exemplo,   são   pessoas solteiras   e   sem   filhos,   portanto   sem   herdeiros   diretos.   Com   a   morte,   seus   bens   (inclusive   o   terreno   e   o   prédio   onde   se instala   o   terreiro,   se   este   é   de   sua   propriedade)   tuentram   no   inventário   obrigatório   para   que   seja   efetuada   a   partilha de   bens   entre   os   herdeiros   legais   como   o   pai,   a   mãe,   irmãos,   sobrinhos   etc.   Como   os   chefes   de   terreiro   costumam manter   a   propriedade   em   seu   nome   (apesar   de   manterem   os   registros   dos   terreiros   como   sociedades   civis),   mais   um problema   se   põe   para   a   continuidade   do   terreiro.   Porque   geralmente   os   familiares   que   não   fazem   parte   do   candomblé desejam vender o imóvel, dando fim, desse modo, ao terreiro. É praticamente impossível ultrapassar este obstáculo. Penso que o crescimento do candomblé obriga a pensar mais detidamente tais questões. Os   sacerdotes   que   conhecem   o   axexê   não   poderiam   (ou   deveriam)   pensar   em   ensiná-lo   a   seus   filhos   e   outros interessados?   Não   poderiam   diminuir   sua   ganância   cobrando   menos   ou   então   de   acordo   com   as   reais   possibilidades de   custeio   dos   filhos   de   uma   casa?   Os   chefes   de   terreiro   não   poderiam   indicar   em   vida   seus   possíveis   sucessores? Não   poderiam   registrar   o   imóvel   de   uso   religioso   como   bem   da Associação,   a   fim   de   retirá-lo   do   alcance   de   herdeiros não   envolvidos   com   a   religião,   garantindo   dessa   forma,   minimamente,   a   continuidade   de   algo   por   que   tanto   lutou   e viveu?   Apresento   ainda   mais   uma   questão:   qual   o   papel   das   Federações   de   candomblé   nestes   momentos,   cruciais para   os   terreiros?   Elas   não   poderiam   minorar   os   problemas   se   mantivessem   sacerdotes   conhecedores   do   rito   do axexê   dispostos   a   realizar   estas   cerimônias,   se   não   gratuitamente,   pelo   menos   por   preços   mais   acessíveis?   Para   que servem   estas   Federações?   Qual   seu   papel   junto   ao   candomblé   e   aos   candomblés.   De   que   modo   aplicam   os   recursos que têm?