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 CANDOMBLÉ DA NAÇÃO KETU B - As cerimônias públicas - o toque "Toque"   é   o   nome   que   se   dá,   genericamente,   à   cerimônia   pública   de   candomblé.   Como   o   próprio   nome   revela,   "toque", esta   é   uma   cerimônia   essencialmente   musical.   Seu   objetivo   principal   é   a   presença   dos   orixás   entre   os   mortais.   Sendo   a música   uma   linguagem   privilegiada   no   diálogo   dos   orixás,   o   toque   pode   ser   entendido   como   um   chamado,   ou   uma prece, pedindo aos deuses que venham estar junto a seus filhos, seja por motivo de alegria ou de necessidade destes. Os    terreiros    seguem    um    calendário    litúrgico    que    estipula    a    periodicidade    dos    toques    ao    longo    do    ano.    Motivos específicos   podem   transformar   o   toque   numa   festa.   Assim,   por   exemplo,   os   terreiros   que   fecham   por   ocasião   da Quaresma   realizam   o   Lorogun,   uma   festa   de   encerramento   das   atividades   do   terreiro.   Em   junho,   são   comuns   as "Fogueiras   de   Xangô".   Para   Obaluaê,   é   feita   a   festa   do   Olubajé,   em   agosto;   em   setembro   realizam-se   as   Águas   de Oxalá,   o   que   também   pode   acontecer   em   dezembro.   Em   outubro,   a   Feijoada   de   Ogun.   As   Festas   das   Iabás,   como   o Ipeté de Oxum, acontecem em dezembro. Toques   semanais   e   quinzenais   também   são   comuns,   principalmente   quando   têm   a   função   de   atender   o   público,   como   é o   caso   dos   candomblés   que   cultuam   as   outras   divindades   que   prestam   serviços   mágico-religiosos   através   de   "passes", conselhos   e   receitas   de   "trabalhos"   para   a   solução   dos   problemas   que   lhes   são   apresentados.   Apesar   de   ser   comum que   um   mesmo   terreiro   conjugue   toques   de   comemoração   (festas)   e   de   atendimento,   isso   geralmente   não   acontece simultaneamente.   Já   as   festas   de   saída   de   iaô   (de   iniciação),   ocorrem   sem   um   calendário   previsível,   embora   possam ser   sobrepostas   às   demais.   Todos   os   toques   acontecem   no   espaço   do   terreiro   denominado   "barracão",   onde   se encontram   os   atabaques,   à   frente   dos   quais   canta   e   dança   o   povo-de-santo,   separado   (ainda   que   dentro   de   um   mesmo ambiente) da assistência, à qual também é reservada uma área. Um   toque   comum   começa,   geralmente,   pelo   ritmo   dos   atabaques   chamando   a   "roda-de-santo"   (os   filhos   de   santo organizados   circularmente),   tendo   à   frente   o   pai-de-santo   que   entra   tocando   o   adjá   (sineta),   seguido   pelos   seus subordinados   na   hierarquia:   mãe-pequena,   pejigan,   axogun,   ogãs.   ekedes,   outros   ebomis,   iaôs   por   ordem   de   iniciação ou   organizados   por   "barcos   "   e,   no   "fim"   da   roda,   os   abiãs.   Esta   formação   pode,   ainda,   dividir-se   em   duas   rodas concêntricas:   a   de   dentro   reservada   aos   ebomis   (iniciados   há   pelo   menos   7   anos)   e   a   de   fora   formada   pelos   demais. A mãe   ou   pai   pequenos   e   as   ekedes   também   costumam   tocar   o   adjá.   Nos   toques   festivos   as   roupas   costumam   ser   de grande   beleza,   geralmente   fazendo   alusão,   mesmo   que   no   simples   desenho   do   tecido,   ao   orixá   individual   do   adepto. Neste   dia   são   usadas   as   contas   dos   orixás,   os   brajás   (colares   de   contas   truncados),   as   faixas   na   cintura,   os   símbolos   de ebomis e tudo o que identifique o status religioso do indivíduo. A   roda   entra   dançando   e,   algumas   vezes,   cantando   alguma   cantiga   própria   deste   momento.   Estando   todos   no   barracão, os   atabaques   param,   o   pai-de-santo   saúda   Exu   e   tem   início   o   padê,   cerimônia   que   tem   por   finalidade   "despachar"   Exu (através   da   oferenda   de   farinha   com   dendê   e   aguardente),   seja   porque   se   acredite   que   ele   possa   causar   perturbações ao   toque,   seja   porque   se   acredite   que   é   ele   o   principal   mensageiro   e   que   abrirá   os   caminhos   para   a   vinda   os   orixás. Findo   o   padê,   o   xirê   prossegue.   Xirê   é   uma   estrutura   seqüencial   de   cantigas   para   todos   os   orixás   cultuados   na   casa   ou mesmo   pela   "nação",   indo   de   Exu   a   Oxalá.   Durante   o   xirê,   um   a   um,   todos   os   orixás   são   saudados   e   louvados   com cantigas   próprias,   às   quais   correspondem   coreografias   que   particularizam   as   características   de   cada   deus.   É   nesses momentos, de grande efervescência ritual, que as divindades "baixam". Como   a   finalidade   manifesta   de   um   toque   não   altera   a   estrutura   do   xirê,   julgamos   encontrar   aí   uma   estrutura   na   qual   se intercalam   as   cerimônias   que   lhe   atribuem   um   caráter   específico,   como   é   o   caso   das   festas   de   saída   de   iaô,   entre outras. As saídas de Iaô A   festa   de   Saída   de   Iaô   é   sempre   muito   concorrida   e   tida   como   uma   das   festas   de   maior   axé,   pois   um   orixá   está nascendo. O   iaô   normalmente   costuma   fazer   quatro   aparições   em   público   no   dia   da   festa,   conhecidas   como   "saída   de   Oxalá"   ou "de   branco",   saída   "de   nação"   ou   "estampada",   saída   "do   ekodidé"   ou   "do   nome"   e   saída   do   rum   ou   "rica".   Na   primeira "saída"    o    iaô    (em    transe)    entra    sob    o    alá    (pano    branco),    totalmente    vestido    de    branco,    reverenciando    Oxalá. Cumprimenta   a   porta,   o   ariaxé‚   (ponto   central   do   barracão),   os   atabaques,   o   pai-de-santo   e,   eventualmente,   a   mãe- pequena,   com   dobale   e   paó   (cumprimentos   rituais),   sempre   sobre   a   esteira.   Dá   uma   volta   dançando   de   modo   contido pelo barracão e se retira. Prossegue o xirê. Na   segunda   saída   o   iaô   entra   vestido   e   pintado   com   as   cores   da   "nação".   Há   quem   diga,   no   entanto,   que   esta   saída especifica   a   "qualidade"   (avatar)   do   orixá   que   está   saindo.   Ele   segue   novamente   a   ordem   dos   cumprimentos,   agora somente   com   seu   jicá   (saudação   que   os   orixás   fazem   com   o   corpo),   uma   vez   que   seu   ilá   (grito   com   que   o   orixá   se anuncia) só será conhecido após a "queda" do Kelê. A   terceira   saída,   muito   esperada,   é   a   saída   do   orukó   (nome),   também   chamada   "saída   do   ekodidé"   (pena   vermelha   de papagaio,   relacionada   com   a   fala),   momento   em   que   o   orixá   revelará   publicamente   seu   nome   secreto,   que   é   parte   de   si mesmo.   É   um   momento   de   grande   emoção,   acompanhado   de   um   certo   suspense,   estimulado   pelos   outros   filhos   de santo, que geralmente   "viram"   (entram   em   transe)   ao   ouvir   o   nome.   Dito   o   orukó,   os   atabaques   imediatamente   começam   o   adarrum (ritmo   muito   acelerado)   e   o   orixá   é   levado   para   vestir   suas   roupas   de   rum   (dança),   ou   seja,   suas   vestes   típicas   e   suas "ferramentas" para voltar e dançar, pela primeira vez, em público. Esta   é   a   quarta   saída:   a   saída   do   rum   ou   "rica",   quando   o   orixá   entra,   saúda   os   pontos   principais   com   seu   jicá   e   dança suas   cantigas.   Geralmente,   nessa   saída,   o   orixá   dança   apenas   as   músicas   que   lhe   são   atribuídas   e   nenhuma   outra, mas   há   casos   em   que   o   novo   orixá   dança   também   para   o   orixá   do   pai-de-santo.   Não   convém,   entretanto,   fazer   dançar demais   o   orixá   muito   novo.   Findo   o   rum,   toca-se   para   retirar   o   iaô   em   transe   da   sala   ("cantar   para   subir",   dizem   os alabês) e o xirê prossegue até as cantigas para Oxalá, encerrando o toque. Toca-se   então   para   a   entrada   do   ajeum,   que   pode   conter   as   mais   diversas   comidas   e   bebidas,   de   acordo   com   o   orixá feito e com as posses do iniciado. II- A Estrutura Musical A   música,   no   candomblé,   tem   um   papel   mais   significativo   que   o   mero   fornecimento   de   estímulos   sonoros   aos   diversos rituais.   Ela   pode   ser   entendida   como   elemento   constitutivo   do   culto,   dando   forma   a   conteúdos   inexprimíveis   em   outras linguagens,   termo   aqui   entendido   como   articulação   de   signos   e   símbolos.   Todos   os   rituais   do   culto   estão   apoiados também   na   música,   que   mostra   um   caráter   estruturante   das   diversas   experiências   religiosas   vividas   por   seus   membros. Do   paó   (seqüência   rítmica   de   palmas   usada   para   reverência)   ao   toque   (xirê),   a   música   continua   sendo   parte   de   cada cerimônia, constituindo-a, delimitando situações e ordenando o conjunto das práticas extremamente detalhadas. "Tocar   candomblé"   é   um   termo   comum   entre   o   "povo-de-santo",   indicando   que   o   candomblé   e   a   música   se   confundem. Por   isso,   o   conhecimento   das   cantigas   e   dos   ritmos   denota   prestígio   e   acesso   às   instâncias   de   poder   da   religião.   Sendo a   música   um   elemento   sagrado   e   sacralizante,   tanto   instrumentos   quanto   instrumentistas   se   revestem   desta   aura,   que se revela no tratamento que estes recebem por parte dos membros da comunidade do terreiro . Instrumentos e Instrumentistas No   candomblé,   os   atabaques   ou   "couros"   (tambores)   com   os   quais   se   invocam   as   divindades   são   tidos   como   seres vivos   e   sua   utilização   reservada   apenas   aos   ogãs   alabês   (instrumentistas   iniciados).   Cabe   a   eles   a   execução   do repertório   apropriado   a   cada   divindade,   que   compreende   um   conjunto   de   cantigas   diferenciadas,   com   ritmos   próprios. A "orquestra"   do   candomblé   é   formada   por   três   tambores   de   tamanhos   diferentes:   o   de   tamanho   maior,   denominado   Rum, o   médio,   Rumpi   (chamado,   em   muitas   casas,   apenas   de   Pi)   e   o   pequeno,   Lé.   No   candomblé   de   rito   Ketu   os   atabaques são   percutidos   com   aguidavis   (varinhas),   enquanto   no   rito   Angola   eles   são   tocados   com   as   mãos.   Sendo   instrumentos sacralizados,   os   atabaques   recebem   sacrifícios   periodicamente   renovados.   São   instrumentos   consagrados   às   entidades padroeiras   dos   terreiros,   sendo   o   Rum,   na   maioria   das   casas,   dedicado   a   Exu.   Os   laços   com   que   são   adornados   os atabaques indicam, em suas cores, os orixás aos quais foram consagrados. Os   atabaques   são   usados   principalmente   nas   cerimônias   públicas,   quando   são   tocados   pelos   alabês.   Cada   um   executa uma    frase    rítmica    individualmente,    perfazendo,    no    conjunto,    um    polirritmo,    cuja    marcação    é    dada    pelo    Rum, responsável,   ao   mesmo   tempo,   pelo   "repique"   ou   "dobrado"   (floreio),   que   dão   à   música   um   caráter   diferencial   acentuado conforme   os   ritmos   de   cada   orixá.   Essa   função   particular   do   Rum   estabelece   sua   maior   importância   em   relação   aos outros   dois   atabaques.   A   expressão   "dar   o   rum   no   orixá"   é   indicativa   da   posição   desse   instrumento   no   conjunto   da "orquestra".   Essa   mesma   importância   é   observável   por   ocasião   da   reverência   obrigatória   aos   atabaques,   quando   o   Rum é   o   primeiro   a   ser   saudado   pelos   fiéis,   também   cabendo   a   ele   noticiar   e   saudar   a   chegada   de   visitantes   ilustres   ao terreiro    (receber    o    "dobrar    dos    couros"    é    sinal    de    grande    prestígio).    Portanto,    cabe    ao    chefe    dos    alabês    a responsabilidade   pelo   Rum   particularmente   e   também   pelos   outros   atabaques;   não   só   durante   o   toque,   mas   por   sua manutenção   permanente.   Quando   não   estão   em   uso,   os   atabaques   devem   ser   cobertos   por   um   pano   branco   e,   uma   vez que   são   considerados   como   portadores   de   axé,   eles   não   podem   ser   removidos   do   terreiro.   Pelo   mesmo   motivo,   são tratados com especial reverência quando, por algum acidente, caem ao chão. Além   do   Rum,   a   marcação   do   ritmo   dos   atabaques   pode   ser   feita   por   um   instrumento   de   ferro,   em   forma   de   sino   simples denominado   "gã",   ou   duplo,   "agogô",   percutido   por   uma   haste   de   metal.   Apesar   do   caráter   sagrado,   seu   uso   não   é restrito aos alabês.
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 CANDOMBLÉ DA NAÇÃO KETU B - As cerimônias públicas - o toque "Toque"    é    o    nome    que    se    dá,    genericamente,    à cerimônia   pública   de   candomblé.   Como   o   próprio   nome revela,   "toque",   esta   é   uma   cerimônia   essencialmente musical.   Seu   objetivo   principal   é   a   presença   dos   orixás entre    os    mortais.    Sendo    a    música    uma    linguagem privilegiada    no    diálogo    dos    orixás,    o    toque    pode    ser entendido   como   um   chamado,   ou   uma   prece,   pedindo aos   deuses   que   venham   estar   junto   a   seus   filhos,   seja por motivo de alegria ou de necessidade destes. Os   terreiros   seguem   um   calendário   litúrgico   que   estipula a   periodicidade   dos   toques   ao   longo   do   ano.   Motivos específicos    podem    transformar    o    toque    numa    festa. Assim,    por    exemplo,    os    terreiros    que    fecham    por ocasião   da   Quaresma   realizam   o   Lorogun,   uma   festa   de encerramento   das   atividades   do   terreiro.   Em   junho,   são comuns   as   "Fogueiras   de   Xangô".   Para   Obaluaê,   é   feita a   festa   do   Olubajé,   em   agosto;   em   setembro   realizam-se as   Águas   de   Oxalá,   o   que   também   pode   acontecer   em dezembro.   Em   outubro,   a   Feijoada   de   Ogun.   As   Festas das    Iabás,    como    o    Ipeté    de    Oxum,    acontecem    em dezembro. Toques    semanais    e    quinzenais    também    são    comuns, principalmente    quando    têm    a    função    de    atender    o público,   como   é   o   caso   dos   candomblés   que   cultuam   as outras     divindades     que     prestam     serviços     mágico- religiosos   através   de   "passes",   conselhos   e   receitas   de "trabalhos"   para   a   solução   dos   problemas   que   lhes   são apresentados.   Apesar   de   ser   comum   que   um   mesmo terreiro   conjugue   toques   de   comemoração   (festas)   e   de atendimento,        isso        geralmente        não        acontece simultaneamente.    Já    as    festas    de    saída    de    iaô    (de iniciação),     ocorrem     sem     um     calendário     previsível, embora   possam   ser   sobrepostas   às   demais.   Todos   os toques   acontecem   no   espaço   do   terreiro   denominado "barracão",   onde   se   encontram   os   atabaques,   à   frente dos    quais    canta    e    dança    o    povo-de-santo,    separado (ainda     que     dentro     de     um     mesmo     ambiente)     da assistência, à qual também é reservada uma área. Um   toque   comum   começa,   geralmente,   pelo   ritmo   dos atabaques    chamando    a    "roda-de-santo"    (os    filhos    de santo   organizados   circularmente),   tendo   à   frente   o   pai- de-santo    que    entra    tocando    o    adjá    (sineta),    seguido pelos   seus   subordinados   na   hierarquia:   mãe-pequena, pejigan,   axogun,   ogãs.   ekedes,   outros   ebomis,   iaôs   por ordem   de   iniciação   ou   organizados   por   "barcos   "   e,   no "fim"    da    roda,    os    abiãs.    Esta    formação    pode,    ainda, dividir-se    em    duas    rodas    concêntricas:    a    de    dentro reservada   aos   ebomis   (iniciados   há   pelo   menos   7   anos) e    a    de    fora    formada    pelos    demais.    A    mãe    ou    pai pequenos   e   as   ekedes   também   costumam   tocar   o   adjá. Nos   toques   festivos   as   roupas   costumam   ser   de   grande beleza,    geralmente    fazendo    alusão,    mesmo    que    no simples    desenho    do    tecido,    ao    orixá    individual    do adepto.   Neste   dia   são   usadas   as   contas   dos   orixás,   os brajás    (colares    de    contas    truncados),    as    faixas    na cintura,   os   símbolos   de   ebomis   e   tudo   o   que   identifique o status religioso do indivíduo. A    roda    entra    dançando    e,    algumas    vezes,    cantando alguma   cantiga   própria   deste   momento.   Estando   todos no   barracão,   os   atabaques   param,   o   pai-de-santo   saúda Exu    e    tem    início    o    padê,    cerimônia    que    tem    por finalidade    "despachar"    Exu    (através    da    oferenda    de farinha    com    dendê    e    aguardente),    seja    porque    se acredite   que   ele   possa   causar   perturbações   ao   toque, seja   porque   se   acredite   que   é   ele   o   principal   mensageiro e   que   abrirá   os   caminhos   para   a   vinda   os   orixás.   Findo   o padê,   o   xirê   prossegue.   Xirê   é   uma   estrutura   seqüencial de   cantigas   para   todos   os   orixás   cultuados   na   casa   ou mesmo   pela   "nação",   indo   de   Exu   a   Oxalá.   Durante   o xirê,   um   a   um,   todos   os   orixás   são   saudados   e   louvados com      cantigas      próprias,      às      quais      correspondem coreografias    que    particularizam    as    características    de cada      deus.      É      nesses      momentos,      de      grande efervescência ritual, que as divindades "baixam". Como   a   finalidade   manifesta   de   um   toque   não   altera   a estrutura   do   xirê,   julgamos   encontrar   aí   uma   estrutura na   qual   se   intercalam   as   cerimônias   que   lhe   atribuem um   caráter   específico,   como   é   o   caso   das   festas   de saída de iaô, entre outras. As saídas de Iaô A   festa   de   Saída   de   Iaô   é   sempre   muito   concorrida   e tida   como   uma   das   festas   de   maior   axé,   pois   um   orixá está nascendo. O   iaô   normalmente   costuma   fazer   quatro   aparições   em público    no    dia    da    festa,    conhecidas    como    "saída    de Oxalá"      ou      "de      branco",      saída      "de      nação"      ou "estampada",   saída   "do   ekodidé"   ou   "do   nome"   e   saída do   rum   ou   "rica".   Na   primeira   "saída"   o   iaô   (em   transe) entra   sob   o   alá   (pano   branco),   totalmente   vestido   de branco,   reverenciando   Oxalá.   Cumprimenta   a   porta,   o ariaxé‚   (ponto   central   do   barracão),   os   atabaques,   o   pai- de-santo   e,   eventualmente,   a   mãe-pequena,   com   dobale e   paó   (cumprimentos   rituais),   sempre   sobre   a   esteira. Dá   uma   volta   dançando   de   modo   contido   pelo   barracão e se retira. Prossegue o xirê. Na   segunda   saída   o   iaô   entra   vestido   e   pintado   com   as cores   da   "nação".   Há   quem   diga,   no   entanto,   que   esta saída   especifica   a   "qualidade"   (avatar)   do   orixá   que   está saindo.      Ele      segue      novamente      a      ordem      dos cumprimentos,   agora   somente   com   seu   jicá   (saudação que   os   orixás   fazem   com   o   corpo),   uma   vez   que   seu   ilá (grito   com   que   o   orixá   se   anuncia)   só   será   conhecido após a "queda" do Kelê. A   terceira   saída,   muito   esperada,   é   a   saída   do   orukó (nome),    também    chamada    "saída    do    ekodidé"    (pena vermelha     de     papagaio,     relacionada     com     a     fala), momento    em    que    o    orixá    revelará    publicamente    seu nome   secreto,   que   é   parte   de   si   mesmo.   É   um   momento de     grande     emoção,     acompanhado     de     um     certo suspense, estimulado pelos outros filhos de santo, que geralmente   "viram"   (entram   em   transe)   ao   ouvir   o   nome. Dito   o   orukó,   os   atabaques   imediatamente   começam   o adarrum   (ritmo   muito   acelerado)   e   o   orixá   é   levado   para vestir   suas   roupas   de   rum   (dança),   ou   seja,   suas   vestes típicas   e   suas   "ferramentas"   para   voltar   e   dançar,   pela primeira vez, em público. Esta   é   a   quarta   saída:   a   saída   do   rum   ou   "rica",   quando o   orixá   entra,   saúda   os   pontos   principais   com   seu   jicá   e dança   suas   cantigas.   Geralmente,   nessa   saída,   o   orixá dança    apenas    as    músicas    que    lhe    são    atribuídas    e nenhuma   outra,   mas   há   casos   em   que   o   novo   orixá dança    também    para    o    orixá    do    pai-de-santo.    Não convém,   entretanto,   fazer   dançar   demais   o   orixá   muito novo.   Findo   o   rum,   toca-se   para   retirar   o   iaô   em   transe da   sala   ("cantar   para   subir",   dizem   os   alabês)   e   o   xirê prossegue   até   as   cantigas   para   Oxalá,   encerrando   o toque. Toca-se    então    para    a    entrada    do    ajeum,    que    pode conter   as   mais   diversas   comidas   e   bebidas,   de   acordo com o orixá feito e com as posses do iniciado. II- A Estrutura Musical A     música,     no     candomblé,     tem     um     papel     mais significativo    que    o    mero    fornecimento    de    estímulos sonoros    aos    diversos    rituais.    Ela    pode    ser    entendida como    elemento    constitutivo    do    culto,    dando    forma    a conteúdos    inexprimíveis    em    outras    linguagens,    termo aqui   entendido   como   articulação   de   signos   e   símbolos. Todos   os   rituais   do   culto   estão   apoiados   também   na música,     que     mostra     um     caráter     estruturante     das diversas     experiências     religiosas     vividas     por     seus membros.   Do   paó   (seqüência   rítmica   de   palmas   usada para    reverência)    ao    toque    (xirê),    a    música    continua sendo      parte      de      cada      cerimônia,      constituindo-a, delimitando    situações    e    ordenando    o    conjunto    das práticas extremamente detalhadas. "Tocar   candomblé"   é   um   termo   comum   entre   o   "povo-de- santo",    indicando    que    o    candomblé    e    a    música    se confundem.   Por   isso,   o   conhecimento   das   cantigas   e dos   ritmos   denota   prestígio   e   acesso   às   instâncias   de poder   da   religião.   Sendo   a   música   um   elemento   sagrado e         sacralizante,         tanto         instrumentos         quanto instrumentistas   se   revestem   desta   aura,   que   se   revela no     tratamento     que     estes     recebem     por     parte     dos membros da comunidade do terreiro . Instrumentos e Instrumentistas No    candomblé,    os    atabaques    ou    "couros"    (tambores) com   os   quais   se   invocam   as   divindades   são   tidos   como seres   vivos   e   sua   utilização   reservada   apenas   aos   ogãs alabês     (instrumentistas     iniciados).     Cabe     a     eles     a execução    do    repertório    apropriado    a    cada    divindade, que   compreende   um   conjunto   de   cantigas   diferenciadas, com    ritmos    próprios.    A    "orquestra"    do    candomblé    é formada   por   três   tambores   de   tamanhos   diferentes:   o   de tamanho    maior,    denominado    Rum,    o    médio,    Rumpi (chamado,    em    muitas    casas,    apenas    de    Pi)    e    o pequeno,   Lé.   No   candomblé   de   rito   Ketu   os   atabaques são   percutidos   com   aguidavis   (varinhas),   enquanto   no rito    Angola    eles    são    tocados    com    as    mãos.    Sendo instrumentos     sacralizados,     os     atabaques     recebem sacrifícios   periodicamente   renovados.   São   instrumentos consagrados    às    entidades    padroeiras    dos    terreiros, sendo   o   Rum,   na   maioria   das   casas,   dedicado   a   Exu. Os   laços   com   que   são   adornados   os   atabaques   indicam, em suas cores, os orixás aos quais foram consagrados. Os      atabaques      são      usados      principalmente      nas cerimônias   públicas,   quando   são   tocados   pelos   alabês. Cada    um    executa    uma    frase    rítmica    individualmente, perfazendo,   no   conjunto,   um   polirritmo,   cuja   marcação   é dada   pelo   Rum,   responsável,   ao   mesmo   tempo,   pelo "repique"   ou   "dobrado"   (floreio),   que   dão   à   música   um caráter    diferencial    acentuado    conforme    os    ritmos    de cada   orixá.   Essa   função   particular   do   Rum   estabelece sua    maior    importância    em    relação    aos    outros    dois atabaques. A   expressão   "dar   o   rum   no   orixá"   é   indicativa da      posição      desse      instrumento      no      conjunto      da "orquestra".   Essa   mesma   importância   é   observável   por ocasião     da     reverência     obrigatória     aos     atabaques, quando   o   Rum   é   o   primeiro   a   ser   saudado   pelos   fiéis, também   cabendo   a   ele   noticiar   e   saudar   a   chegada   de visitantes    ilustres    ao    terreiro    (receber    o    "dobrar    dos couros"   é   sinal   de   grande   prestígio).   Portanto,   cabe   ao chefe     dos     alabês     a     responsabilidade     pelo     Rum particularmente   e   também   pelos   outros   atabaques;   não só     durante     o     toque,     mas     por     sua     manutenção permanente.   Quando   não   estão   em   uso,   os   atabaques devem   ser   cobertos   por   um   pano   branco   e,   uma   vez   que são    considerados    como    portadores    de    axé,    eles    não podem   ser   removidos   do   terreiro.   Pelo   mesmo   motivo, são   tratados   com   especial   reverência   quando,   por   algum acidente, caem ao chão. Além   do   Rum,   a   marcação   do   ritmo   dos   atabaques   pode ser   feita   por   um   instrumento   de   ferro,   em   forma   de   sino simples   denominado   "gã",   ou   duplo,   "agogô",   percutido por   uma   haste   de   metal. Apesar   do   caráter   sagrado,   seu uso não é restrito aos alabês.
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TEL FIXO 11 5513-6064
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